quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

  Território de sonhos ( Roseana) 
  
 " Minutos antes de abrir os olhos,
quando a luz tenta esgueirar-se pelas
frestas das janelas de madeira, fabrico
uma imagem: estou em uma canoa, num lago.
Estou sozinha, em pé na canoa,
e tenho nas mãos uma rede. Jogo
a rede no lago com um movimento dos
braços e do corpo. Na verdade o lago
sou eu e espero trazer na rede algumas
das mulheres que me habitam."

Verão (Ferreira Gullar)

Este fevereiro azul
como a chama da paixão
nascido com morte certa
com prevista duração

deflagra suas manhãs
sobre as montanhas e o mar
com o desatino de tudo
que esta para se acabar.

A carne de fevereiro
tem sabor suicida
de coisa que está vivendo
vivendo mas já perdida.

Mas como tudo que vive
não desiste de viver,
fevereiro não desiste:
vai morrer, não quer morrer.

E a luta de resistêmcia
se trava em todo lugar:
por cima dos edifícios
por sobre as águas do mar.

O vento que empurra a tarde
arrasta a fera ferida,
rasga-lhe o corpo de nuvens,
dessangra-a sobre a Avenida

Vieira Souto e o Arpoador
numa ampla hemorragia.
Suja de sangue as montanhas,
tinge as águas da baía.

E nesse esquartejamento
a que outros chamam de verão,
Fevereiro ainda agonia
resiste mordendo o chão.

Sim, fevereiro resiste
como uma fera ferida.
É essa espeança doida
que é o própio nome da vida.

Vai morrer, não quer morrer.
Se apega a tudo que existe:
na areia, no mar, na relva,
no meu coração - resiste.